quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A psiquiatria BASEADA EM EVIDÊNCIAS FRENTE AOS MOVIMENTOS ANTIPSIQUIÁTRIcos NOS eSTADOS UNIDOS DA AMÉRICA e o ACESSo a saúde

 

A psiquiatria BASEADA EM EVIDÊNCIAS FRENTE AOS MOVIMENTOS ANTIPSIQUIÁTRIcos NOS eSTADOS UNIDOS DA AMÉRICA e o ACESSo a saúde

 

 

 

 

Jarly Silva, Advogado especialista em Direito Administrativo Público e Processual Civil

 

 

 

Resumo

Este trabalho apresenta um percurso histórico de como a medicina psiquiátrica baseada em evidências promoveu o sustentáculo da especialidade médica de psiquiatria, como parte integrante da medicina, diante dos inúmeros movimentos anti-psiquiatria surgidos nos Estados Unidos da América e a garantia do acesso a saúde aos doentes mentais obtido com a sistematização dos diagnósticos.

 

ABSTRACT

 

This work presents a historical trajectory of how evidence-based psychiatric medicine promoted the mainstay of the medical specialty of psychiatry, as an integral part of medicine, in the face of the numerous anti-psychiatry movements that emerged in the United States of America and the guarantee of access to health for mental patients obtained with the systematization of diagnoses.

 

Palavras chave: Psiquiatria Baseada em Evidência  – Sistematização de Diagnósticos - Movimentos Anti-psiquiatria  – Acesso a Saúde

 

Keywords: Evidence-Based Psychiatry – Systematization of Diagnoses – Anti-Psychiatry Movements – Access to Health

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

            A patologia mental desde a idade antiga até a idade contemporânea era associada a crenças espirituais ou como chaga divina. Os acometidos de transtornos mentais não tinham tratamento adequado; a política de saúde adotada era o internamento, onde prosperava todo tipo de experimento sem qualquer base científica e os pacientes utilizados como verdadeiras cobaias humanas.

Os pacientes eram mantidos acorrentados e isolados do convívio social. Tal política não era adotada tão somente àqueles que padeciam de doenças mentais, pois nas diversas instituições, as quais promoviam o internamento, se poderia encontrar todo tipo de indivíduos rejeitados pela comunidade, como: mendigos, ladrões, assassinos, mulheres consideradas adúlteras, grávidas não-casadas, dentre outros, portanto não se aplicava o conceito médico para a internação.

Porém na última década do século XVIII houve uma reviravolta no tratamento, com a primeira revolução da psiquiatria, utilizando da ciência médica como base, pelas mãos do psiquiatra francês Phillipe Pinel[1] (1745-1826) e também pela humanização do tratamento proposto pelo Filantropo William Tuke[2] (1732-1822), os quais promoveram a retirada das correntes dos internos e tratamento respeitando a dignidade do indivíduo.

          A psiquiatria evoluiu bastante desde este primeiro episódio, porém ainda necessitava de bases científicas para se solidificar como ciência médica. No século XIX é iniciado o estudo científico da psiquiatria com base na relação entre a observação dos pacientes e as dissecações do material encefálico deles. Com base neste estudo surgia a divisão entre a Neurologia e a Psiquiatria como especialidades médicas distintas.

Ainda neste século, surgem os psiquiatras teóricos Alienistas e os Psicanalistas. Durante esse período, até o ano de 1980, há predomínio desta última corrente, cuja análise se fixa no psiquê humano. Surgem diversos tratamentos sem respaldo científicos e movimentos anti-psiquiatria nos Estados Unidos da América (EUA). O descrédito da Psiquiatria, como ciência, leva a uma guinada e a Teoria Alienista consegue finalmente prevalecer com o advento da publicação do Manual de Diagnóstico e Estatística de Desordens Mentais – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-III). A Psiquiatria finalmente encontra seu lugar na ciência, como especialidade médica com a publicação do DSM-III e suas alterações posteriores.

O estudo foi baseado na pesquisa bibliográfica especializada, revistas e trabalhos científicos publicados na rede eletrônica e pesquisa em sítios eletrônicos governamentais.

 

Uma Construção Baseada em Evidências

          Uma especialidade médica deve pautar seus estudos e experimentos em bases científicas. Serão necessários para esta construção que o estudo tenha demonstração e validação das investigações e experimentos. As evidências científicas surgem desse processo de investigação.

No século XIX, nas universidades de medicina, diversos médicos começaram a estudar o comportamento dos pacientes acometidos de doenças mentais, associado a dissecação dos cérebros dos cadáveres destes pacientes. Com a evolução do microscópio puderam os médicos descobrir, catalogar e separar duas categorias de distúrbios mentais: A primeira delas, a Neurologia – dedicava ao estudo ao dano ao cérebro ocasionado por alguma patologia ou impacto visíveis ao microscópio - e assim classificaram o parkinson e Alzheimer como doenças neurológicas. A segunda, ficaria com a Psiquiatria, pois não havia a presença de dano ou anormalidade física no tecido cerebral, nestes casos classificaram os distúrbios mentais.

A partir desse experimento científico houve a divisão entre as especialidades Neurologia cuja doenças eram aquelas observáveis por traços no cérebro e a segunda a Psiquiatria, cujas doenças não possuíam alguma causa detectável. No ano de 1808 surgia a denominação Psiquiatria, com base no tratamento médico da alma, pelo médico alemão Johann Christian Reil (1759-1813).

          Surgiu, neste mesmo século, a teoria da psiquiatria biológica, a qual pretendia associar a doença mental com a neurologia, pois alegavam que a doença mental poderia ser atribuída também a anomalias físicas do cérebro.  Seu expoente era o psiquiatra alemão Wilhelm Griesing (1817-1868), cuja análise se baseava no exame físico e nas análises laboratoriais de fluidos e tecidos corpóreos de todos de pacientes internados em manicômios. Em 1867, no periódico “Archives of Psychiatry and Nervous Disease”, Griesing afirmava que a doença mental era na verdade doença dos nervos e do cérebro. Tal teoria não prosperou, pois apenas o Alzheimer - considerada a época como doença mental - era observável por marcas cerebrais.

          Nos anos seguintes várias experiências baseadas em evidências obtiveram sucesso, como nos fármacos, Eletrochoqueterapia (ECT) no tratamento aos pacientes com depressão severa e diagnósticos por imagem, porém alguns outros foram considerados duvidosos, como a lobotomia, terapia da febre induzida, dentre outros 

          O conceito epistemiológico de medicina baseada em evidências surgiu no ano de 1992, pelas análises do cientista americano Gordon Guyatt da Universidade McMaster, assim descrito por El Dib[3]: “... sendo definido como uso criterioso, judicioso e consciencioso da melhor evidência científica na administração dos cuidados médicos aos pacientes.” (El Dib, 2014, pág. 09).  

Apesar de tal conceito ser posterior a evolução histórica da especialidade da psiquiatria, a ciência médica já vinha utilizando de tais bases científicas em sua história já no século XIX, como no estudo da divisão da Neurologia x Psiquiatria e no século XX, no desenvolvimento de vários fármacos.

Corrente Alienista x Psicanalista

          Até o século XIX, os cuidados eram prestados aos doentes mentais conforme a possibilidade financeira do doente. Enquanto que os mais abastados podiam  realizar o tratamento ambulatorial nos diversos consultórios e serem tratados em propriedades rurais da família, a grande maioria dos menos afortunados, eram isolados em manicômios. O tratamento aplicado não buscava a cura, pois ela ainda não havia chegado, objetivava a privar o doente do convívio com a sociedade.

No século XX, o tratamento dispensado ao doente mental evoluiu de certa forma, pois não se baseava somente na internação, mas também na ideia de estimulação do autocuidado do doente, para que o mesmo pudesse recuperar a sensação de estabilidade, autocontrole, organização, disciplina e higiene pessoal. Portanto, se institucionalizou a prestação de cuidados dando dignidade ao doente. Tal conceito ainda é adotado em muito hospitais mentais pelo mundo, como no Centro Médico da Universidade de Columbia e Hospital Presbiteriano de Nova York.

O tratamento baseado no autocontrole dos doentes, nas unidades psiquiátricas deu origem aos médicos Alienistas[4], psiquiatras que trabalhavam em manicômios rurais e prestavam tratamentos médicos baseados no respeito a dignidade humana e tratar as doenças físicas. O traço mais marcante dos alienistas era o tratamento físico das doenças mentais baseado nas análises psicodinâmicas e biológicas da doença, cujo objetivo era aliviar o sofrimento do doente, já que não havia cura. A cura somente surgiu após o desenvolvimento dos fármacos, como a Clorpromazina[5] em 1950, primeiro medicamento criado contra a Esquizofrenia.

 A grande maioria dos pacientes tratados nos manicômios era de origem humilde. O modelo Alienista prosperou até o ano de 1909 quando Sigmund Freud[6] (1856-1930) visitou os EUA como convidado, afim de dar palestras quando, em 1930, foi superada pela Psicanálise, em virtude da emigração dos psicanalistas alemães/judeus aos EUA, fugindo da perseguição nazista na Alemanha.

          A corrente Psicanalista[7],  baseada na teoria de Sigmund Freud tinha como enfoque o tratamento da doença mental com a análise do inconsciente humano através do sonho e da hipnose.

Os Psicanalistas atendiam em consultório e seu público era composto de pessoas com nível financeiro, social e cultural elevado e que poderiam pagar as consultas. Por tal motivo esta teoria prosperou nos EUA nos anos 30, pois era a que melhor remunerava o médico. Como toda atividade que remunera, o médico recebe pelos seus serviços. Diante disso, muitos dos alienistas a época, optaram por adotar a corrente psicanalista, tanto pelo conforto no atedimento em consultório, como pelo ganho financeiro e reconhecimento da psiquiatria por esse público, em virtude de maior influência na sociedade.

          A forma de tratamento psicanalista foi se tornando o mais aplicada nos consultórios psiquiátricos dos EUA. Sua influência era predominante, inclusive na Associação Americana de Psiquiatria, constituída em 1927,  desde o ano de 1930 até o ano de 1960. Neste período todos os cargos de direção em instituições psiquiatras eram ocupados por médicos simpatizantes da psicanálise.

          A grande maioria dos doentes mentais ainda estava internada em hospitais psiquiátricos e, nestas unidades, ainda prevalecia o modelo de tratamento alienista que foi perdendo campo na medicina psiquiátrica. No entanto, apesar de dominante, a psicanálise não era uma ciência baseada em análises físicas; sua classificação se baseava no diagnóstico de neuroses. Muito embora tenha influenciado na criação do primeiro e no segundo Manual Americano de Diagnóstico de Doenças Mentais (DSM sigla em inglês), o método psicanalista iria perder totalmente sua influência na terceira edição para o modelo alienista, cujas premissas foram buscadas nos hospitais psiquiátricos. A partir da criação do DSM-III, a classificação da doenças mentais foi alterada de neuroses para psicoses.

Os Tratamentos Questionáveis

          Diante do pouco conhecimento em relação as patologias mentais, muitas técnicas não científicas foram aplicadas como forma de tratamento aos doentes mentais na história, muitas delas consideradas fraudes ou sem comprovação de melhora. Aplicavam-se desde sangrias, vesicatórios e purgações, até inovações tecnológicas como a criação da máquina giratória pelo médico inglês Joseph Mason Cox (1762-1822) para o tratamento da melancolia e da cadeira tranquilizadora inventada pelo médico americano Benjamin Rush (1746-1813) para tratamento da histeria. Tais tratamentos, não ortodoxos, ocorreram entre a idade média até a idade contemporânea, quando outros foram surgindo.

          Neste cenário de conhecimento incipiente, surgem no século XX algumas figuras consideradas pela medicina como verdadeiros charlatães, apesar de serem médicos psiquiatras renomados, em virtude dos tratamentos que prometiam a cura dos sintomas mentais.

 No ano de 1940 o psiquiatra austríaco William Reich (1897-1957) criou o Instituto Orgone, a fim de oferecer tratamento aos distúrbios emocionais com base na terapia dos orgônios, os quais na concepção do Dr. Reich seriam uma forma oculta de energia que se encontra na natureza. O tratamento se baseava na compressão desta energia e aplicação no paciente visando a cura de qualquer doença mental. Deve ressaltar que tal tratamento tinha o endosso do físico teórico alemão Albert Einstein e o Dr. Reich tinha ocupado o cargo de diretor-assistente na Policlínica Psicanalítica de Viena, dirigida por Sigmund Freud, o que podia avalizar tal tratamento.

Reich chegou a declarar em 1947 que seu tratamento além de curar todas as doenças mentais, seria também a cura do câncer e que tinha contatos com seres extraterrestres. Diante de tal afirmação o FDA interveio e considerou o tratamento, a base de orgônio e o aparelho orgônico, como fraudes. Neste mesmo ano, um juiz americano expediu uma ordem judicial banindo o tratamento, a publicidade e a venda de aparelhos orgônicos. Um júri o considerou culpado pela fraude decretando o fechamento de seu instituto, bem como sua prisão em 11 de março de 1957. Morreu na prisão no mesmo ano. Conforme descreve Borine (2021, p. 10 e 11): “em seu testamento, aberto em 2008, Reich ainda defendia com entusiasmo o seu tratamento baseado na energia do orgônio e suas experiências com seres de outros planetas, inclusive achava que estudantes adeririam a sua teoria”.

Outro médico, cujo tratamento não possui respaldo científico, é o psiquiatra americano David Amen, autor da popular coleção de livros: “Mude seu cérebro” e astro da TV americana PBS. Apesar de consagrado pelos apresentadores Joan Baez, Rick Warren e Bill Cosby, seu diagnóstico de doença mental por intermédio da tomografia computadorizada por emisão de fótom único (Spect Cerebral) não possui qualquer evidência de sucesso. Endossam tal consideração o diretor de neuroimagem do Insitituto Nacional de Saúde Mental o Dr. Robert Innis e a diretora do Centro de Neurociência da Universidade da Pensilvânia a Dra. Martha J. Farah, muito embora ainda seja aclamado pelo seu público.

Outros tantos tratamentos considerados questionáveis na psiquiatria, como o magnetismo animal do médico suábio Frans Anton Mesmer (1734-1815), a terapia contra a malária do médico austríaco Julius Wagner Jauregg (1857-1940), lobotomia do médico americano Walter Freeman (1895-1972), dentre outros, pois não obtiveram sucesso na melhora clínica.

Neste ambiente de tratamentos sem bases científicas, a psiquiatria era ainda mais  questionada e fragilizada como especialidade médica.

 

Movimentos Antipsiquiátricos nos EUA

          Antes de adentrar ao surgimento dos movimentos de Anti-psiquiatria nos EUA, se deve recordar que o sistema de diagnóstico vigente até o ano de 1980, era fruto da corrente psiquiátrica psicanalista majoritária até este período, a qual se fundava no conceito de neurose, considerado não científico. Também deve ressaltar que movimentos contrário a ciência existem no mundo todo, a exemplo dos movimentos contrários as vacinas.

Neste ambiente surgiram diversas teorias contra a psiquiatria nos EUA. No ano de 1961, o médico psiquiatra húngaro Thomas Szasz (1920-2012) que pertencia ao corpo docente da Universidade de Siracusa publicou o livro: “The Myth of Mental Illnes (O Mito da Doença Mental)”[8], neste livro o autor afirma que as doenças mentais são ficções não científicas utlizadas pela psiquiatria para justificar os diversos tratamentos aplicados, pois não apresentam sintomas físicos iguais ao de outras doenças. Afirmava não ser a psiquiatria uma ciência médica, já que a corrente psiquiátrica dominante a época era a psicanálise. Tal ideia encontrou sustentáculo nos jovens simpatizantes da contra-cultura americana, devido, em parte, a Szasz ser, além de médico psiquiatra, ser docente de uma universidade, onde alguns desses jovens estudavam. No ano de 1969, junto com a direção da Igreja de Cientologia, fundou a Comissão dos Cidadãos para os Direitos Humanos (CCHR, sigla em inglês) cujo objetivo era banir a psiquiatria como ciência médica. Suas teorias geraram um movimento ativista que questionava o profissão de médico psiquiatra e exigia a extinção da psiquiatria como especilidade médica.

As teorias de Sarzs, acabaram por inspirar o sociólogo americano Erving Goffman (1922-1982) a publicar, também em 1961, o livro “Asylums (Asilos/manicômios)”[9], no qual denunciava as condições sanitárias dos diversos hospitais psiquiátricos, a superlotação e a forma de tratamento dispensado aos internados. Tal autor não considerava as instituições psiquiatras como uma unidade hospitalar, mas a comparava como uma prisão ou um campo de concentração, porém todas as suas afirmações padeciam de respaldo científico, pois vieram de suas observações em pacientes em um período de apenas um ano de trabalho em uma única unidade psiquiátrica. Assim descreve Gambino[10]:

Ao longo de quatro ensaios vinculados tematicamente, Goffman argumentou que o hospital psiquiátrico de grande escala é melhor entendido como uma instituição total, semelhante a uma prisão ou campo de concentração. Muito do comportamento aparentemente bizarro exibido em tais lugares, ele sustentou, pode ser entendido como uma resposta razoável a um ambiente social autoritário no qual os indivíduos são privados dos meios mais básicos de autodefinição. Inicialmente recebe uma descrição perspicaz, se idiossincrática, da vida em um hospital psiquiátrico, Asilos permaneceu continuamente impressa desde que apareceu pela primeira vez. Poucos estudos estritamente acadêmicos tiveram uma leitura tão extensa, influenciando tanto a cultura popular quanto as políticas públicas. Como um relato da cultura institucional, no entanto, Asilos continua lamentavelmente incompleto. Goffman baseou grande parte de sua análise em um ano de trabalho de campo no St. Elizabeths Hospital, um importante centro psiquiátrico federal em Washington, DC. (Matthew Gambino, 2013, p. 1, tradução ao português)

 

Quando os conceitos de Sarz e Goffman encontravam-se em grande crescimento junto aos movimentos ativistas, surge no continente europeu outro personagem antipsiquiatria, o psiquiatra escocês Ronald David Laing (1927-1989), muito embora Laing acreditasse na existência da patologia mental, não acreditava no tratamento dispensado ao doente mental, afirmava que apenas a atenção social bastaria para a cura do doente mental, desprezando a terapia medicamentosa.

Apesar de apresentar suas ideias anti-psiquiatria em todos os congressos em que participava, Laing viu seus conceitos ruírem quando descobriu que sua própria filha tinha esquizofrenia, conforme cita Lieberman[11]:

As convicções de Laing acabaram sendo postas a prova quando sua própria filha desenvolveu esquizofrenia. Depois disso, ele ficou desiludido com suas teorias. As pessoas que o conheceram me disseram que ele se tornou um sujeito que cobra para dar palestras sobre teorias em que não mais acredita. Ele deixou muito claro que sabia que a esquizofrenia tinhas as características de uma verdadeira doença do cérebro, mas que jamais diria isso em público. (Jeffrey A. Lieberman, 2016, p. 107)

 

Ainda neste movimento, no ano de 1973, o advogado e psicólogo americano David Rosenhan (1929-2012) publicou um artigo, baseado em um estudo empírico, na Revista Science denominado - “Ser normal nas casas de loucos” -, onde o autor questionava a psiquiatria da seguinte forma: “Se a insanidade mental existe, como identificá-la?” e “sabemos há muito tempo que os diagnósticos muitas vezes não são úteis ou confiáveis, mas mesmo assim continuamos a usá-los. Agora sabemos que não podemos distinguir insanidade de sanidade”.

Tal artigo foi baseado em um experimento empírico, no qual Rosenhan enviou alguns indivíduos sadios para serem avaliados e internados em diversas unidades psiquiátricas. Nenhum dos psiquiatras conseguiu identificar a farsa e os indivíduos ficaram internados nessa unidades, obtendo alta sem nenhuma descoberta. Muito embora tais indivíduos tenham sido internados, tais procedimentos eram com quadro clínico a esclarecer, ou seja, não tinham sido diagnosticados como doentes mentais. No ano de 1974 Rosenhan anunciou que mandaria mais pessoas sadias, a fim de testar o modo pelo qual os psiquiatras diagnosticavam as doenças mentais, de um universo de 193  avaliados, os psiquiatras indentificaram cerca de 20% como possíveis impostores, porém não havia sido enviado qualquer indivíduo por Rosenhan. Apesar de sua análise encontrar falhas no sistema de internação, as declarações de Rosenhan continham muitas insconsistências e padeciam de evidências científicas.

          As ideias de Szasz, Goffman, Rosenhan e outros contra a psiquiatria encontrou apoio de diversos movimentos sociais como os Panteras Negras[12], Marxistas[13] e as pessoas contrárias a Guerra do Vietnan.

Diante desses movimentos anti-psiquiatria, o direito dos pacientes psiquiátricos sofreu um revés, pois empresas particulares de seguro de saúde americanas como a Blue Cross e Aetna se aproveitaram de tais estudos para a reduzir a cobertura na saúde mental. A justificativa apresentada pelas seguradoras era de que não havia clareza e nem uniformidade tanto no diagnóstico, quanto no  tratamento e nas instalações psiquiátricas.

Alguns governos estaduais também se aproveitaram de tais ideias, a fim de cortar gastos com a saúde, já que a maioria dos doentes mentais internados nas diversas instituições careciam de recursos e portanto dependiam de políticas públicas sociais gratuitas ou por intermédio da divisão dos custos entre governo e paciente em seguros públicos.

Também foram atingidos por tais movimentos: - o Medicare: criado em 1965, é um programa federal de seguros públicos de saúde do governo americano para atendimento das pessoas com mais de 65 anos e paciente jovens com deficiência ou pacientes em diálises. No ano de 2019, o Senado Americano introduziu o “Medicare at 50 act”, para abranger cidadãos com idade maior ou igual a 50 anos. Tal programa se baseia na repartição de custos entre o governo e o segurado; e – Medicaid: criado em 1965, é um programa de assistência de âmbito estadual, sob diretrizes federais, na forma de seguridade social, o qual custeia atendimento médico de pessoas de baixa renda de todas as idades. Como pode notar, ambas as políticas possuem conteúdo social a população vulnerável.

          Para mudar tal panorama, a psiquiatria necessitava de uma reformulação em seus diagnósticos, redução da influência psicanalista e basear sua ciência com comprovações científicas, capazes de alterar o sentimento antipsiquiatria vigente. Para isso, haveria a necessidade de criação de um novo manual de diagnósticos, o qual não se baseasse na corrente psicanalista, porém somente em 1980 surgia o DSM-III resgatando a Teoria Organicista[14] do médico psiquiatra alemão Emil Kraepelin, base do alienismo. Este manual resgatou o conceito científico da psiquiatria e alterou a conduta das empresa particulares de seguros médicos nos EUA, as quais passaram a pagar o tratamento dispensado somente as doenças que estivessem descritas no DSM-III. Seguindo tal entendimento todas as políticas públicas de saúde pública baseadas no Medicare, Medicaid e Instituições de desenvolvimento e pesquisa passaram a financiar os estudos científicios relacionados a ciência médica da psiquiatria, desde que baseados nos diagnósticos descritos no DSM-III. As publicações das atualizações dos DSM seguintes vieram a garantir a solidez dos diagnósticos e as bases científicas da medicina psiquiátrica, bem como a garantir o acesso a saúde mental dos pacientes dependentes de programas médicos do governo.


Necessidade na Sistematização dos Diagnósticos das Doenças Mentais

 

Não existia nenhum documento sistematizando as diversas doenças mentais, o que havia eram apenas conceitos isolados. Uma especialidade médica para se sustentar necessita de dignósticos sistematizados e precisos. No ano de 1883, Emil Kraepelin criou o primeiro compêndio de psiquiatria, na realidade era um livro de bolso,  no qual havia a divisão das psicoses em três grupos: - demência precoce, - loucura maníaco depressiva e – paranóia. Tal compêndio permaneceu popular entre os psiquiatras até a chegada da Segunda Guerra Mundial, quando devido a alta rejeição por médicos militares americanos de recrutas no alistamento e no tratamento dos soldados vindos do front da 2ª Guerra Mundial afetados pelo Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT) - também chamada de Síndrome do Soldado - houve a necessidade da criação de um manual. Assim surgiu, no ano de 1943, um novo sistema de classificação denominado “Medical 203”[15], o qual descrevia 60 doenças mentais. Mesmo após esta sistematização, o diagnóstico ainda permanecia deficitário.

          Diante deste cenário, no ano de 1952 a Associação Americana de Psiquiatria (APA) se reuniu, tomando como base o sistema de classificação “Medical 203”, para criar o primeiro Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), sendo denominado DSM-I, o qual descrevia 106 transtornos mentais. Com a busca na excelência dos diagnósticos a Associação de Pisiquiatria Americana conduziu estudos durante as décadas seguintes para inovação de seu primeiro DSM-I, devendo ressaltar que a intenção da associação era a desconstrução das ideias dos movimentos antipsiquiatria nos EUA. Em virtude disso surgiram: 1) DSM-II (1968), 2) DSM-III (1980), 3) DSM-IV (1994) e 4) DSM-V (2014), este último encontra-se vigente  até o momento. Cabe ressaltar que desde a criação do Manual DSM-III o modelo de tratamento apresentado é baseado na corrente alienista com base na classificação de psicoses, critério este considerado como científico em detrimento da classificação de neuroses no DSM-I e DSM-II. Apesar de ainda existentes nos EUA e no mundo, os movimentos anti-psiquiatria perderam seu valor devido a comprovação científica da doença mental e de seu tratamento.

 

CONCLUSÃO

Diante do tema proposto, o presente estudo buscou demonstrar a necessidade de que a ciência médica, em especial a psiquiatria, necessita estar fundamentada na medicina baseada em evidência para se manter como ciência. A credibilidade da medicina se sustenta em experimentos, cujos resultados sejam devidamente comprovados por métodos científicos.

O Movimento antipsiquiatria surgido nos EUA e seus principais ícones basearam seus discursos de que a especialidade não tinha comprovação científica e portanto não seria uma verdadeira ciência. Tais pensadores padeciam em confirmar suas teses, pois se utlizavam apenas do empirismo desprezando demais requisitos científicos, muito embora tivessem suas ideias abraçadas pelos diversos movimentos de contra-cultura americanos. Tal movimento afetou diretamente políticas sociais no atendimento a saúde mental e o direito a saúde da população carente que mais dependia destes serviços. Os seguros de saúde particulares também beberam dessa fonte antipsiquiatria, para vedar coberturas relativas a doenças mental. Tal fato, apesar de ter sido registrado nos EUA serve de modelo para o mundo, pois a ciência muitas das vezes é contestada por parte da população.

O sustentáculo final da especialidade psiquiatria nos EUA ocorreu após a edição do Manual de Diagnóstico de Doenças Mentais (DSM-III) e suas atualizações posteriores, quando prevaleceu a corrente alienista da psiquiatria. Deve conjugar a este cenário, o reconhecimento deste manual como normatizador dos diagnósticos das doenças mentais pelas diversas seguradoras e pelo poder público americano promovendo o retorno do acesso a saúde mental a todos, em especial, àqueles desprovidos dos recursos financeiros, os quais necessitavam do acesso aos seguros públicos como o Medicare e atendimento médico social desenvolvidos pela política pública do Medicaid.

Por fim a ciência é dinâmica e a psiquiatria deve acompanhar as evoluções no tratamento da doença mental. Muito embora ainda existam movimentos antipsiquiatria nos EUA e no mundo, se a medicina psiquiátrica acompanhar a evolução humana, como as demais ciências médicas, não restará dúvidas de sua necessidade no tratamento das doenças mentais como patologias humanas.

 

 

 

 REFERÊNCIAS

 

BORINE, Mônica Silvia, W. REICH & J. PIERRAKOS: Abertura dos arquivos Orgonomia e Core Energetics, Spiral Editora, São Paulo, Pág. 10 e 11, 3ª edição, 2021, e-book, sítio eletrônico da internet: https://pt.scribd.com/read/514778716/W-Reich-J-Pierrakos#__search-menu_314487, acessado em 14 de abril de 2021

 

EL DIB, Regina. Guia prático de medicina baseada em evidências. 1. ed. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014. (Coleção PROEX Digital-UNESP). ISBN 9788579835339. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/126244.

 

FOCAULT, Michel A História da Loucura (estudos), São Paulo: Perspectiva, 12ª edição, 2019.

 

GAMBINO, Matthew MD e PHD, Erving Goffman Asylums and Institutional Culture in the Mid-twentieth-century United States, Vol. 21, Nº 1, janeiro/fevereiro de 2013, sítio eletrônico da internet: http://www.harvardreviewofpsychiatry.org, consultado em 18 de abril, de 2022.

 

LIEBERMAN, Jeffrey. Psiquiatria Uma História Não Contada, Editora: Martins Fontes, Ed.2ª tiragem 2019.

 

Sítio eletrônico da internet: www.newscientist.com/definition/the-rosenhan-experiment/, The Rosehan experiment 1973, Revista New Cientist, consultado em 14 de abril de 2022.

 

 Sítio eletrônico da internet: www.medicare.gov/, conceituação e abrangência do programa nacional de seguros, consultado em 18 de abril, de 2022.

 

 Sítio eletrônico da internet: www.medicaid.gov/, conceituação e abrangência do programa público de assistência médica, consultado em 18 de abril, de 2022.

 

Sítio eletrônico da internet: https://www.congress.gov/bill/116th-congress/senate-bill/470/all-info, Medicare at 50 act, consultado em 24 de abril, de 2022.

 

 



[1] Médico psiquiatra francês que promoveu a primeira reforma psiquiatra no mundo em 1793, promovendo medidas contra a política de saúde do internamento.

[2] Filantropo e Negociante inglês que fundou em York (cidade inglês) asilos rurais, criando assim o conceito de tratamento de saúde mental em colônias rurais, onde o paciente trabalhava no uso da terra.

[3] Regina El Dib - Professora assistente do Departamento de Anestesiologia – Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) – UNESP. Pesquisadora colaboradora do McMaster Institute of Urology – McMaster University – Hamilton, Canada. Líder do Grupo da Unidade de Medicina Baseada em Evidencias da UNESP registrado no CNPq.

[4] Corrente psiquiatra cujas premissas vêm do organicismo desenvolvido por Emil Kaepellin, as quais podiam ser comprovados por métodos científicos ciência;

[5] Antipsicótico clássico utilizado no tratamento da esquizofrenia.

[6] Médico psiquiatra austríaco criador da teoria da psicanálise; e

[7] Corrente psiquiatra adotada em consultórios, cujas premissa são as análises do psiquê humano introduzidas por Sigmund Freud.

[8] Livro lançado em 1961, o qual questionava a psiquiatria como ciência, alegando que transtornos mentais são construtivismos sociais.

[9] Livro lançado em 1961 cujo autor questionava o tratamento dispensado aos pacientes internados, superlotação e condições sanitárias dos diversos manicômios dos EUA.

[10] Professor-assistente de Psiquiatria Clínica do Colégio de Medicina Psiquiátrica dos EUA, MD e PHD em Medicina Psiquiátrica.

[11] Jeffrey Lieberman, médico psiquiatra americano e escritor, ex-presidente da Associação de Psiquiatria Americana.

[12] Movimento americano dos negros surgido nos anos 1960 objetivando o combate à violência empreendida por policiais aos americanos de pele negra e o desrespeito aos direitos civis desta população.

[13] Movimento que utiliza a análise socioeconômica sobre as relações de classe e conflito social.

[14] Teoria que apontava a doença mental como uma patologia, a qual poderia ser comprovada por métodos científicos.

[15] Boletim técnico do Departamento de Guerra, ficou conhecido pela denominação “medical 203” por causa do número do boletim em que foi publicado no Exército Americano.

Nenhum comentário:

Postar um comentário